11 de novembro de 2009

Tokyo!


Três diretores, três filmes e três visões peculiares sobre a capital japonesa. Tokyo!, longa composto por três episódios, dirigidos pelos franceses Leos Carax, Michel Gondry e pelo sul-coreano Bong Joon-ho, traz uma das cidades mais peculiares do planeta vista sob perspectivas diversas.

Até aí, tudo muito bem, tudo muito bom. É sempre interessante reunir realizadores em torno de um tema comum, mas sem apelar para a obviedade: os três episódios não se interconectam, o que faz de Tóquio a única suposta linha a uní-los.

O episódio dirigido por Carax - Merde - é, de longe, o mais interessante. Uma figura estranha, misto de corcunda e eremita, sai dos bueiros da cidade e percorre as ruas atacando pedestres. Rouba cigarros e sanduíches, aterroriza passantes e retorna aos subterrâneos da cidade. A "criatura" acaba capturada pela polícia. Ninguém entende a língua estranha que fala, a não ser um intérprete. Através deste, a "criatura" dispara virulência contra a cidade e seus habitantes, especificamente contra a parcela feminina. Pela estranheza, comum nos filmes de Carax, o episódio se destaca.

Os outros dois segmentos - Interior Design, de Michel Gondry, e Shaking Tokyo, de Bong Jo-hoo - escoram-se no talento de seus diretores.

Gondry desfia um espetáculo visual delirante para falar de um jovem casal à procura de um apartamento. Tendo em mãos uma estória convencional, o diretor aproveita e explora as mudanças psicológicas e físicas de dois jovens com aspirações artísticas em processo de amadurecimento.

Shaking Tokyo, por sua vez, é amostra cristalina do talento do diretor de O Hospedeiro (2006) e do brilhante Memórias de um Assassino (2003). Um homem - o termo em japonês é hikikomori - torna-se um eremita, vivendo basicamente de pizzas entregues em sua "caverna". Como sói acontecer, um belo dia, ele é arrancado do isolamento por uma linda entregadora, por quem se apaixona, e se vê forçado a sair de casa enquanto o restante da população se refugia por conta de um terremoto.

A irregularidade de Tokyo! está no simples fato de que não há como unir três vertentes - e três maneiras de fazer cinema - tão díspares e esperar que, juntas, elas façam sentido. O longa é uma epxeriência curiosa, daquelas que deveos ter uma vez. E uma vez apenas.


Tokyo! (Tokyo!)
França, Alemanha, Japão e Coréia do Sul. 2008, 112 minutos.
Direção: Michel Gondry, Leos Carax e Bong Jo-hoo

4 de novembro de 2009

À Procura de Eric/Looking For Eric


Eric Bishop tem uma vida nada agradável. Já faz um tempo que sua segunda mulher o deixou com os dois enteados, agora adolescentes movidos à álcool e videogame, caminhando pela doce estrada da mais fina vagabundagem. Vivendo numa casinha sebosa e mal cuidada, ele tem apenas duas coisas nas quais se escorar: o emprego nos Correios e o Manchester United.

Em meio à um colapso nervoso, incapaz de falar dos próprios problemas com a filha do primeiro casamento, com os enteados do segundo, com os amigos e até consigo mesmo, ele pede ajuda à seu ídolo maior, imponente num pôster na parede do quarto: o jogador de futebol Eric Cantona ('Rei Eric' para os fãs do Manchester United). E Cantona atende.

Cantona passa a visitar Eric regularmente em seu quarto, acompanha-o no trabalho, sempre com uma frase motivadora (em francês) na ponta da língua. Num jogo de realidade/fantasia, o diretor Ken Loach conta, com sua reconhecida habilidade nas relações humanas, uma estória de reparação de relações emboloradas pelo tempo e prejudicadas pela falta de comunicação. E, claro, pela falta de coragem. E ninguém melhor que Cantona, em seu tempo como atleta um jogador destemido e guerreiro, para tirar Eric, o carteiro, da lama e injetar-lhe coragem, mostrando o valor do trabalho coletivo.

À Procura de Eric notabiliza-se por uma mistura equilibrada de realidade e fantasia. Ken Loach mantém a mistura sem transformar Cantona num super-herói, tampouco deixando Eric, o carteiro, tornar-se um metrossexual de meia-idade que supera os problemas e passa a ver a vida sob a ótica piegas da superação. A delicadeza do longa reside num retrato simples de uma vida banal, com problemas banais. E Loach, de fato, é um mestre nisso.


À Procura de Eric (Looking For Eric)
Reino Unido, 2009. 114 minutos.
Direção: Ken Loach
Com: Steve Evetts, Eric Cantona.

21 de outubro de 2009

O Caçador/Choo Gyeok Ja



Imagine o leitor uma estória de serial killer. Agora inverta tudo o que sempre acontece nesse tipo de estória, não espere descobrir quem é o assassino no final e confie no mais controverso dos protagonistas. 

O grande mérito de um filme como O Caçador, e de certa forma de boa parte do cinema sul-coreano (vide Old Boy), é não dar muita bola para o reaproveitamento de tramas e técnicas narrativas. Com a óbvia barreira do idioma, procura se escorar na montagem, na fotografia e numa forma absolutamente própria de fazer cinema.

Um ex-detetive de polícia, agora no ramo da cafetinagem, começa a dar falta de suas moças, que saem para atender clientes e simplesmente não voltam. A partir de uma descoberta fortuita, o cafetão passa a investigar o sumiço de suas "funcionárias", ignorando o bom trabalho policial. À base de tapas, chutes e socos, abre caminho para encontrar o assassino, um sádico frustrado sexualmente.

O que se segue daí é um thriller interessantíssimo, nada sutil em termos de violência, mas incrivelmente arejado em termos de montagem e trilha. O diretor Hong-Jin Na aproveita cada segundo das duas horas de seu longa alternando informação/entretenimento em passo acelerado e consistente. 

Tamanha habilidade chama mais atenção ainda quando se descobre que este é apenas o primeiro longa do diretor, antes um requisitado roteirista na Coréia do Sul. Não recomendado para estômagos e corações fracos, O Caçador é prova consistente de que certas formas não caducam: melhoram.



O Caçador
(Choo Gyeok Ja)
Coréia do Sul, 2008. 125 min.
Direção: Hong-Jin Na
Com: Jung-woo Ha , Yoon-suk Kim , Young-hee Seo

14 de outubro de 2009

Algo Que Você Precisa Saber/Quelque Chose a Te Dire



A mãe verborrágica, o pai aposentado. O filho, um fracasso nos negócios. Uma filha enfermeira que prevê o futuro de seus pares através do tarô, a outra filha artista plástica, viciada em drogas e de atribulada vida sexual. Descrevendo assim, a família do longa Algo que Você Precisa Saber ou está prestes a explodir ou não deve ter lá a melhor das relações. Não e sim. A diretora belga Cécile Telerman prova que do caos renascem as esperanças e que relações há muito prejudicadas podem ressurgir fortes.

Tudo gira em torno de um segredo. Guardado pela mãe (Charlote Rampling, hilária), esquecido pelo pai, desconhecido para o restante da família. Cabe à filha-problema (Mathilde Seigner), a partir de uma visita ao distrito policial para "averiguação", desencadear a revelação do tal segredo. De um interessante jogo de coincidências, e das relações entre trama e subtrama, que podem até parecer banais e reaproveitadas, Telerman extrai reflexões edificantes. O cuidado empregado pela diretora para a coisa toda não descambar é admirável.

O grande feito aqui é tratar de uma família problemática sem usar velhos clichês. Todos têm problemas, acham que não têm problemas e são compelidos, pela força absoluta do acaso, a travar uma batalha com aquilo que os formou. Nem todo diretor dispõe de uma estória como essa e consegue contá-la de maneira original e limpa. Mas há que se louvar boas tentativas. Algo que Você Precisa Saber é daqueles filmes que de um jeito modesto, sem espalhafato, acerta o alvo. Se francês, russo ou filipino, não importa.


Algo Que Você Precisa Saber (Quelque Chose a Te Dire)
França, 2009. 100 minutos.
Direção: Cécile Telerman

Novidades no Amor



Ao ouvir as palavras "comédia romântica", parte do público sua frio, esfrega as mãos e sai correndo. De medo, de mais uma dessas delicadas atrocidades. Outra parte - grande parte - sai em desabalada carreira e lota salas de cinema, tanto para aquela pipoca de domingo quanto para meia dúzia de risadas baratas. Mas eis que surge um filme como Novidades no Amor, e ambas as partes podem coexistir pacificamente. Destoando das demais, essa comédia de bons diálogos e roteiro simpático aquece até mesmo os mais gelados corações cinematográficos.

A "trama" é simples: mulher recém divorciada muda-se com os dois filhos para Nova Iorque em busca de novos horizontes. Sem tempo para quase nada, ela contrata um rapaz para tomar conta das crianças. O rapaz é (adivinhem?) bonito, jovem e traz à vida de Sandy (Catherine Zeta-Jones, tolerável, por incrível que pareça) tudo o que ela aparentemente precisa.  De início ela se confunde, não sabe bem como agir diante de uma nova paixão e... a coisa assim caminha e termina como todos imaginamos que termina: bem.

Novidades no Amor não representa um novo paradigma para a comédia romântica, não reinventa o cinema, nem revela os dotes de um novo gênio da direção no cinema ocidental. Trata-se de um filme com um objetivo claro e definido. Há uma estória, dessas que vemos e ouvimos cotidianamente, desdobrada por uma direção bastante segura (nota-se que o distinto Bart Freundlich entende do riscado). Permeado por grandes momentos cômicos e atuações razoáveis, o longa desafia as caras mais sisudas e pode arrancar inesperadas risadas.



Novidades no Amor (The Rebound)
EUA, 2009. 97 minutos.
Direção: Bart Freundlich
Com: Catherine Zeta-Jones

1 de outubro de 2009

Salve Geral


Qualquer discussão um pouco mais profunda sobre Salve Geral, o novo longa do diretor Sergio Rezende, esbarra naquelas mesmices tipicamente locais.

Exemplo: "É o Brasil no Oscar". Ainda não. Mas, como ufanismo, cachaça e estupidez parecem ser as novas preferências nacionais, toda e qualquer análise do filme, obrigatoriamente ,vem/virá acompanhada da citação àquela estátua dourada cobiçada por um batalhão de diretores, tanto aqui quanto lá fora.

Fato é que mais uma vez um diretor brasileiro desperdiça uma oportunidade dourada de falar dos problemas - superlotação de cadeias, conivência do Estado com a criminalidade, o apodrecimento constante do tal tecido social - e os trata como se eles só fossem dignos apenas de visões metafóricas ou análises sócio-sambísticas de mesa de bar. Joga-se fora - mais uma vez - a chance cristalina de dar um "salve" ao público brasileiro, sem firulas de direção e montagem "esperta", e refrescar sua memória quanto aos acontecimentos tenebrosos iniciados no Dia das Mães de 2006 e tudo que vem antes e que veio depois.

"Salve" é gíria para recado. O recado de Rezende é só para o seus, não para todos. Seus criminosos são frios e parecem sempre estar pensando em algo mais edificante do que simplesmente "mandar subir" (matar) inimigos, traidores e delatores. Um deles, chamado Professor, está muito mais para destaque de trio elétrico em parada GLBT do que propriamente para o crime.

Os policiais têm a naturalidade de um Ed Morte. Os diálogos, por todo o filme, usam aquele tipo raro de português que só se fala no cinema local. Parece uma impossibilidade física (para não dizer mental) cada vez maior para roteiristas, diretores e para os honrados "preparadores de elenco" se convencerem de que NINGUÉM fala daquele jeito. Uma visitinha às ruas às vezes resolve.

Andréa Beltrão, no papel de uma professora de piano que tem de se acostumar à vida de pobre, corta um dobrado para não soar ridícula. Seus predicados (muitos) como atriz salvam a atuação de um desastre. Lee Thalor, o excelente ator goiano, no papel do filho de Beltrão, integrante da trupe do diretor teatral Antunes Filho, é jóia (nem tão) rara. Caso não descambe para a novela ou para as minisséries/minifilmes de quinta à meia noite, tem campo aberto no teatro e no cinema. Sua voz talvez seja a única afinada no "desconcerto" de Sérgio Rezende.

O leitor se pergunta: "Salve Geral", então, não merece ganhar o Oscar? Não se trata de merecimento. Uma vez laureado, automaticamente o filme há de virar um totem, e será colocado naquela prateleira alta onde o ufanismo do Salvelindo nos obriga a colocar os Glaubers, Chicos e Caetanos. O problema, aí, passa a ser de quem deu o prêmio. No entanto, se não ganha, torcemos todos o nariz e dizemos "Ah, os americanos, não entendem nosso cinema".

Será que não mesmo?

Salve Geral
Brasil, 2009. 119 minutos.
Direção: Sergio Rezende
Com: Andréa Beltrão, Lee Thalor.

20 de agosto de 2009

Se Beber, Não Case/The Hangover


Não é muito inspiradora a idéia de um filme sobre uma despedida de solteiro que dá errado. Na "terra do clichê" esse talvez seja um entre os mais gastos e caducos.

Como a recente safra de comédias americanas anda em nível nada promissor - drogas, humor adolescente e uma aparente disposição de mandar o mundo pelos ares em quase todos os filmes recentes do gênero - Se Beber, Não Case é uma aposta quase suicida.

Quatro amigos vão para Las Vegas para o bota-fora de um deles, instalam-se numa suíte espetacular do hotel Caesar's e... É inevitável um leve suspiro de tédio e a velha certeza de que nada de novo está por vir.

Os rapazes acordam no dia seguinte em frangalhos, na suíte destruída, acompanhados de um tigre e um bebê.

E sem o futuro noivo.

A pergunta "O que aconteceu noite passada?" é repetida mais do que o tolerável e assim segue o cortejo. O que faz o diretor Todd Phillips - Starsky & Hutch, Escola de Idiotas e Bittersweet Motel, documentário inédito no Brasil sobre a banda americana Phish - é remanejar elementos da comédia, empregando o espírito libertador de um cinema neo-independente. Parece um grande feito, uma "reinvenção da roda" da comédia.

Não é.

Na melhor das intenções, Se Beber, Não Case é uma comédia de erros e desmesuras. Faz rir não pelo tema ou pela estória, mas porque expõe o talento de atores aparentemente desconhecidos – a começar pelo barbudo genial Zach Galifianakis – numa abordagem incomum.

Cometer os velhos exageros – “Uma das grandes comédias do ano”, por exemplo – não se aplica ao caso. Melhor dizer que se trata só de uma comédia.

Faz justiça e não cria ilusões.


Se Beber, Não Case (The Hangover)
Eua, 2009. 100 minutos.
Direção: Todd Phillips

Gigante/Gigante


O filme do diretor argentino radicado no Uruguai Adrián Biniez, 35 anos, fará boa parte dos demais diretores latino-americanos - especialmente os brasileiros com mania de grandeza - torcer o nariz.

Mas há algo de original, sim, neste aparentemente despretensioso terceiro longa de Biniez, Gigante.

Operando com simplicidade, Biniez nos dá a vida de um homem grande, doce e solitário, mas sem os violinos, as furtivas lágrimas de canto de olho ou a desgraça que parece vicejar no cinema latino.

Do longa emana clara e manifesta intenção de não complicar, de fazer cinema metodicamente e sem espalhafato. Para isso, que nos desculpem, não há como torcer no nariz ou franzir o cenho.

O gigante em questão, o simpático Jara (ou Jarito), é um homem cheio de doçura nos olhos e timidez selvagem. Segurança noturno de um hipermercado em Montevidéu, ele passa seus dias entre a maçante rotina de checar as câmeras de segurança do lugar e o sofá da casa que divide com o sobrinho pré-adolescente e a irmã mandona. Isso faz de Jara um alvo preferencial para o amor, na figura de uma faxineira, sua colega de trabalho. Ele não consegue se aproximar da moça e opta por seguí-la à distância, seja através do monitor de tevê ou pelas ruas da capital uruguaia.

Biniez filma com propriedade. Molda o silêncio e não devaneia com a câmera tremulante nas mãos. Seus planos são eficientes, bem como sua montagem. Cada nuance que coloca em cena tem sua razão de ser.

De desempenho minimalista, seu protagonista, o ator de teatro uruguaio Horacio Camandulle, diz sem falar: ouvimos sua respiração e assistimos seus olhos. Não carecemos do diálogo longo e profuso, que explica o que foi feito para ser visto.

Sem querer alardear ao mundo suas qualidades de autor, faz de um roteiro mínimo uma imensa (e intensa) experiência cinematográfica, uma das mais interessantes a sair recentemente da América Latina.


Gigante
Uruguai, Argentina, Alemanha, Espanha, 2009. 84 minutos.
Direção: Adrián Biniez

11 de agosto de 2009

Confissões de Uma Garota de Programa/The Girlfriend Experience


Mais do que um relato da atribulada vida sexual de uma moça trabalhadora (como sugere o preguiçoso título em português), Confissões de Uma Garota de Programa é sobre os meandros da natureza humana, no que toca os desejos (sujos e disparatados) e necessidades individuais, numa espécie de ode mínima à cultura do Eu - cheio de beleza física, de tesão reprimido e muita grana no bolso.

Embora soe profundo e sugira uma narrativa densa e final "aberto", o filme de Steven Soderbergh, que aos 46 anos caminha entre o popular (Onze, Doze e Treze Homens e Um Segredo) e o "cinema de arte" (Che - O Argentino e sua segunda parte, Guerrilha) como nenhum outro compatriota, brinca com verdades e mentiras com denotada finesse.

Alçado à categoria de diretor a quem os projetos procuram (e não o contrário), Soderbergh monta e remonta o drama moderno, experimentando de tudo, de falsários e pilantras em Las Vegas a revolucionários argentinos. Entre seus projetos futuros, ao que tudo indica, está uma comédia com Matt Damon e um musical passado nos anos 20 sobre o casal Cleópatra e Julio Cesar.

Por hora, ele contratou Sasha Grey, 21 anos, ativíssima (!) atriz pornô americana, para o papel da garota de programa que, por dois mil dólares, posa de “namoradinha” para financistas e toda sorte de executivos-pais de família inconformados e/ou insatisfeitos com a rotina. Estamos em outubro de 2008, o tsunami financeiro e as eleições americanas dão a tônica dos espíritos inquietos. Os cenários são modernosos lofts, restaurantes e lojas de roupas de Nova Iorque.

A câmera, digital, muitas vezes desfocada e trêmula, está onde menos se espera; o plano é improvável, a montagem é arredia, exige do espectador certa aplicação. Vemos os personagens dialogando, mas, numa fuga da obviedade reinante, ouvimos esses mesmos personagens, pouco importando que caras têm.

Longe de reinventar a abordagem de um enredo (à primeira) vista banal, Soderbergh, parece, tira da lama um tipo de cinema rápido - 77 cirúrgicos minutos - e indolor, feito com capricho. Não apela para a liturgia dramática vigente, mas sabe quando e como colocar sua personagem diante de um espelho e fazê-la repetir “Eu sou o bem vindo fruto da vida que tenho”.


Confissões de uma Garota de Programa (The Girlfriend Experience)
EUA, 2009. 77 minutos.
Direção: Steven Soderbergh

3 de agosto de 2009

Kurt Cobain: Retrato de Uma Ausência/Kurt Cobain: About a Son


Entre 1992 e 93, o jornalista e músico Michael Azerrad entrevistou o líder e vocalista do Nirvana, o messias do grunge Kurt Cobain para uma biografia que planejava escrever. No total, reuniu 25 horas de áudio em que o astro reclamava, reclamava, reclamava e - adivinhem? - reclamava um pouco mais.

Sobre tudo. Problemas na infância, problemas na adolescência, problemas do estrelato (àquela altura, absoluto). Cobain estourou os miolos em abril de 1994, levando consigo, segundo alguns, as últimas esperanças do rock ser esta criatura imortal e onisciente.

Azerrad, que de bobo só tem a cara, escreveu, com base nas gravações, Come As You Are: The Story of Nirvava, tido e havido como um justo memorial da banda, e fez lá sua grana. Cobain deixou milhões de viúvas/viúvos que nos últimos 16 anos só fazem chorar pitangas e lamentar, e, certamente, fez muita gente ganhar dinheiro, a começar por Azerrad.

Eis que surge o jovem cineasta americano AJ Schnack, cujo currículo ostenta um documentário sobre a carreira do duo americano They Might Be Giants, e que de posse das gravações de Azerrad, produziu uma peça de puro dilentatismo chamada Kurt Cobain: About a Son (em português, Kurt Cobain: Retrato de uma Ausência, mais pedante impossível). Em caráter meramente ilustrativo, o filme gasta 96 preciosos minutos com belas e planejadas tomadas da horrenda cidade de Seattle (fria e chuvosa em 80% do ano), de suas ruas e sua gente, sob a voz de Cobain a lamuriar.

Não há nada mais chato do que filosofar (ou tratar como filosofia) o rock. Pensando bem, não há nada mais chato do que um rockstar filosofando, especialmente sobre si mesmo. Frank Zappa, apesar de doido, tinha razão: "jornalismo de rock" é, basicamente, gente que não sabe escrever, entrevistando gente que não sabe falar, para gente que não sabe ler. AJ Schnack e seu filme-engodo nos fez um favor e criou uma variante cinematográfica desse raciocínio.


Kurt Cobain: Retrato de Uma Ausência (Kurt Cobain: About a Son)
EUA, 2006. 96 minutos.
Direção: AJ Schnack

Onde Assistir

22 de julho de 2009

Coração Vagabundo

Uma pedra, não importa o que se faça com ela, continuará sendo uma pedra. Você pode lavar a pedra, perfumá-la, embrulhá-la em papel de seda, amarrar com um bonito laço de fita e dá-la na forma de um presente para alguém (que pode até gostar do "presente"): ela vai continuar sendo uma pedra.

Pode não parecer, mas a metáfora funciona para explicar o proto-documentário Coração Vagabundo.

O diretor Fernando Andrade, jovem e audacioso e cheio de idéias, cinco anos atrás acompanhou, munido de sua câmera, o cantor e compositor Caetano Veloso numa série de shows nos Estados Unidos e no Japão. O material - quase 60 horas - esmiuçado e organizado, deu origem à um retrato incomum do filho ilustre de Santo Amaro da Purificação. Contrariando as expectativas mais ferinas, Caetano é um ser humano comum, que detesta acordar cedo e se vê incomodado com as vicissitudes da vida cotidiana.

Mas onde afinal de contas entra a metáfora da pedra? Bem, não importa o quanto o jovem diretor tenha se esforçado para "mostrar o verdadeiro Caetano", ele continua(rá) o mesmo: o maior fã de si mesmo e de tudo que faz e fala (e como fala). E nem adiantou clamar no filme que não é um filho da metrópole, um ser cosmopolita. "Eu sou um filho do interior! Eu nasci em Santo Amaro!", diz ele à certa altura. É, pode até ser. Mas continua sendo o bom e velho Caetano.


Coração Vagabundo
Brasil, 2008. 60 minutos.
Direção: Fernando Andrade

9 de julho de 2009

Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Quando uma série de filmes chega à sexta (!) parte, é impossível conter o ímpeto investigativo e fazer algumas inferências. A primeira e mais importante delas é que uma série desse tamanho chega longe (onze anos já) porque dá lucro. Vende ingresso, livro, videogame. Enche o bolso de muita gente, a começar pelo da inglesa J.K. Rowling, criadora do personagem, autora dos, até aqui, seis livros. E não é à toa que o bolso de Ms. Rowling está estufado.

Tendo o controle absoluto sobre o que vai da página do roteiro para a tela, a autora não desiste: pretende dividir seu sétimo livro em duas estórias que eventualmente virarão filmes a serem lançados nos próximos dois anos. A pergunta é inevitável: Será que Harry Potter virá agora de cabelos compridos e diálogos redigidos pelo roteirista de Ligeiramente Grávidos? Haja feitiço.

Quanto ao novo filme - Harry Potter e O Enigma do Príncipe - nada a dizer além de que se outros cincos filmes ou os seis livros já lançados passaram incólumes ao espectador, a possibilidade de um ataque súbito de tédio profundo durante a sessão é quase certa.

Potter agora é um adolescente com cara de sonso e surtos momentâneos de heroísmo, lidando com as mudanças do corpo e da mente como nenhum adolescente pode fazê-lo: num passe de mágica. As garotas suspiram (algumas choram), os inimigos rosnam e alguém, na última fila de uma sala de cinema, roncará alto.


Harry Potter e O Enigma do Príncipe
Reino Unido, EUA. 153 minutos.
Direção: David Yates

Casamento Silencioso/Nunta muta


Um certo cinema europeu, que não vem dos grandes centros, é sempre promessa algo. Se de porcaria ou jóia rara, vai da cabeça de quem assiste. O romeno Casamento Silencioso, uma bem-humorada fábula antitotalitária, cabe perfeitamente na categoria das jóias. Fala da resistência ao rolo compressor comunista soviético numa Romênia rural, inocente e verdadeira.

Não é difícil perceber que, mesmo tratando-se de um tema gasto, o diretor Horatiu Malaele soube exatamente tecê-lo. Sua ação é viva e uma certa liberdade (quase descompromisso) preenche a tela. Conhecido ator na Romênia, Malaele estréia na direção e o faz com extrema habilidade.

Numa cidade do interior romeno, em 1953, um casal de noivos, ansioso para a grande data que se aproxima, é surpreendido pela ordem do governo soviético para que todos guardem luto de uma semana pela morte de Stálin. Festas estão proibidas. A cidade então se mobiliza para que o casamento saia como deve, mesmo que à sombra da mão pesada do comunismo e de seus exageros.

Exalando um forte aroma do cinema de Emir Kusturica, Casamento Silencioso faz pensar que humor, puro e simples, quando não faz um acordo com a estupidez, nos faz rir sem se dar ao trabalho de antes nos entediar. Se o humor dá a tônica de um longa-metragem inventivo e livre como o filme de Malaele, então, não há contra-indicação alguma.


Casamento Silencioso (Nunta muta)
Romênia, Luxemburgo, França, 2008. 87 minutos.
Direção: Horatiu Malaele

24 de junho de 2009

Jean Charles


Com jeito de documentário, embora ficção "baseada em fatos reais", Jean Charles é mais do que uma denúncia rasgada da atrocidade de que foi vítima o eletricista mineiro, morto com sete tiros na cabeça no metrô de Londres, em 2005.

O diretor brasileiro radicado na Inglaterra Henrique Goldman propõe uma análise humana da "diáspora" brasileira rumo a um país estrangeiro. O personagem que escolhe para tanto é o que faz de seu filme um caso raro.

Tudo bem que, mais uma vez, Selton Mello esteja no papel principal, em destaque no cartaz. Desta feita, no entanto, sua presença ajuda mais do que atrapalha e suas qualidades como ator são, digamos, mais bem aproveitadas.

Pela primeira vez, o espectador tem a sensação de que Selton não interpreta a si mesmo, seguindo o estereótipo do simpático rapaz de fala rápida e tiradas sardônicas, metido em papéis tolos. Carregando no sotaque mineiro (às vezes demais), o ator prima por fazer de seu Jean Charles um tipo cuja ingenuidade se traduz em empatia.

Jean Charles é o retrato de como vivem e a que se submetem multidões de brasileiros Europa afora, especialmente na Inglaterra. Tomando como guia da narrativa a prima de Jean, interpretada com esforço sobrehumano por Vanessa Giácomo, Henrique Goldman não dá ao espectador um panorama educativo da vida brasileira numa metrópole européia, tampouco uma visão irônica de gente interiorana na Europa.

Ao diretor interessa um misto de informação com capricho cinematográfico. Seus planos - poucos e eficientes, diferente da maioria de seus pares - não perdem tempo com digressões poéticas. Seu roteiro, idem. Aliás, nada em Jean Charles quer ser definitivo e marcante como desejam tantos outros diretores. Bastou contar uma história de maneira simples. Sempre funciona.

Jean Charles
Brasil, Reino Unido. 2009, 93 minutos.
Direção: Henrique Goldman
Com: Selton Mello, Vanessa Giacomo.

17 de junho de 2009

Loki

É preciso cautela com os gênios. Quase sempre arredios e quase nunca accessíveis, os gênios - e aí vai de cada um dizer quem o é ou não - parecem perfeitos personagens para um filme documentário de longa-metragem. Não carecem de muita direção, e seu ritmo próprio dita os caminhos que a narrativa, mesmo documental, deva seguir.

Faça-se apenas exceção ao filme de João Moreira Salles sobre o pianista Nelson Freire, cuja graça reside exatamente na timidez silenciosa do gênio e sua música e não na "riqueza" de seus depoimentos.

Assim como Freire, Arnaldo Baptista, o gênio criativo dos Mutantes, o primeiro grande esteta do "rock brasileiro", não precisa falar muito. Depois de tantas (substâncias) e tantos (percalços), sua música e seus experimentos sonoros, ambos apreciados e louvados mais fora do que dentro do país, dizem muito mais do que seu criador. Sendo assim, o trabalho de um documentarista, seja lá quem ele for, é retratá-lo em toda sua desconformidade voluntária com o mundo, e não "experimentar com linguagens" e sair-se com "poesia visual".

Loki, longa-metragem de Paulo Henrique Fontenelle, melhor filme pelo voto popular no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo do ano passado, extrai da aparente fragilidade de Arnaldo - vítima de um colapso nervoso que quase o matou em 1981 - um combustível poderoso. Fontenelle nos permite o contato com Arnaldo. Ele diz X e nós respondemos X, atendendo a seu desejo expresso no filme. A forma honesta com que o diretor nos "dá" Arnaldo é fruto do bom senso, não de uma tentativa vã de querer ser definitivo.

Falam sobre Arnaldo o falecido maestro Rogério Duprat, que contraria as velhinhas saudosas da MPB e deixa claro que "Os Mutantes foram a coisa mais importante do tropicalismo"; fala a cantora Zélia Duncan, colaboradora da última encarnação da banda e segundo quem "Arnaldo achou sua própria maneira de ser feliz". Fala, por fim, Sérgio Dias, irmão e um dos maiores instrumentistas brasileiros, que reivindica o tratamento devido àquele que muitos se acostumaram a considerar louco.

Louco? Arnaldo nunca foi. Louco é quem sente falta de Rita Lee no filme, e acha que um simples pé na bunda faz de alguém um insano. Loki é, ao mesmo tempo, uma homenagem justa e um atestado de maturidade de um documentário brasileiro mais jovem e contemporâneo, que quer tratar do que temos de melhor, não das velhas mazelas permanentes na vida brasileira.


Loki
Brasil, 2008. 120 minutos.
Direção: Paulo Henrique Fontenelle

16 de junho de 2009

As Cantoras do Rádio

O documentário brasileiro vive, se me permitem os céticos, um momento luminar de sua história. Vivemos, caso não tenham percebido os descrentes detratores do Cinema Tupi, um raro caso de superprodução de filmes de toda sorte, majoritariamente no campo documental. Uma prova concreta disso é o crescimento vertiginoso do número de inscrições para festivais do gênero como o É Tudo Verdade (consultem os números, eles certamente não me deixam mentir).

Não falta filme.E, obviamente, não falta assunto.

Amazônia, Pantanal, os confins do Nordeste. As metrópoles – Rio, São Paulo -, sua gente e seus urbanismos. Menores de rua, moradores de rua, sem-teto, sem-terra, sem-vergonha. Tudo é tema, tudo é assunto. Catadores de Lixo, seqüestro de ônibus, atores, atrizes, diretores, cantores,
poetas, escritores, pintores. Gente velha, gente nova; vivos, mortos, riqueza, pobreza, corrupção e loucura. Cegueira, demência, crime, castigo.

Há pelo menos um filme para cada assunto desses. Se não, há para a maioria deles. Vá conferir e não demore com a resposta.

Por conta desse verdadeiro maná de coisas para documentar, começou a pintar um cheirinho desagradável: é o refluxo de uma considerável parcela de filmes - um conjunto de renomadas porcarias. Num festival de cinema, (o do rio, de 2008) por exemplo, com 67 filmes de não-ficção, 21 longas e 10 curtas são (foram) genuinamente nacionais.

Entre eles, e no grupo das que carregam o fedor característico do tal refluxo, está As Cantoras do Rádio.

Utilizando, vá lá, como fio-condutor, o show “Estão Voltando as Flores”, do respeitado produtor e historiador da música brasileira Ricardo Cravo Albin, os diretores Gil Baroni e Marcos Avellar saíram-se com uma digressão descontrolada e patética, expondo simpáticas senhorinhas, as tais cantoras, ao fino do produto do ridículo.

Que o filme resgatasse a importância e a popularidade dessas cantoras em seus tempos de glória e fama – nomes relativamente conhecidos como Carminha Mascarenhas, Carmélia Alves, Violeta Cavalcante e Ellen de Lima – tudo bem. Fosse isso feito de maneira polida, e/ou até mesmo didática, contando de maneira respeitável quem foram e o que fizeram essas senhoras, tudo bem também.

Mas eis que surge das profundezas o velho clichê de conectar passado e presente, de pintar “o que foi um dia digno de nota” com as tintas discutíveis da mudernidade. Daí se imagina o estrago.

As Cantoras do Rádio
Brasil, 2008.
Direção: Gil Baroni e Marcos Avellar

Extra! Extra!

Não, não se trata de um filme.

Tenho um amigo, ele é ator. Sua companhia fez essa versão cheia de estilo de Come Together, aquela canção, daquela banda, vocês sabem o esquema, misturada à Papagaio do Futuro.

Eis aqui o vídeo (devidamente youtubizado). Muita coisa é difícil no Brasil. Ser brasileiro é uma delas. Fazer teatro é outra difícil como o diabo.




Come Together/Papagaio do Futuro
(Lennon/McCartney), (A.Valença)
Cia. Mulungo
Emilio Dantas e Coro - Vocais
Oswaldo Montenegro - Piano e Arranjos

20 de maio de 2009

Jonas Brothers - O Show


A cultura pop, seja lá que diabo é isso, vive de ciclos cada vez mais curtos e cada vez menos expressivos. O próprio rock 'n' roll já morreu e foi ressuscitado algumas centenas de vezes, e em cada uma dessas vezes com uma roupa diferente. Aos Jonas Brothers, coitadinhos, sobrou a ingrata tarefa de fechar um dos mais duradouros e radicais ciclos da música pop ocidental: o do fanatismo adolescente feminino por uma banda de rock.

Desde que uns caras de Liverpool firmaram pé na América do Norte, e antes, com um certo Elvis, do Mississipi, legiões de meninas desesperadas e descontroladas, urrando por garotos bem apessoados metidos em figurinos calculados, são vistas como uma forma bastante rentável de comércio. Se for para fechar um ciclo, que seja lucrativo pelo menos, pouco importando se o dinheiro vai para o bolso do pai-empresário ou de uma corporação como a Disney.

Música? Bem, não importa. Eles são bonitinhos, bem tratados e bem alimentados, sabem empunhar as guitarras certas com as poses certas e têm, vá lá, talento para isso. Para quê exigir música (e boa) num contexto desses? Basta a pose.

Por isso tudo, Jonas Brothers - O Show, filmado e exibido em cinemas 3-D, faz Os Reis do Iê-Iê-Iê ou qualquer um daqueles filmes em que Elvis Presley cantava seus diálogos verdadeiros tratados de filosofia. "Vivendo o Rock" é o mote repetido pelos "brothers" e seus associados entre os números musicais. Seria melhor "Lucrando com o Rock. Em 3-D".

Jonas Brothers - O Show
EUA, 2009. 76 minutos.
Direção: Bruce Hendricks

Vocês, Os Vivos/Du Levande


Certas "experiências cinematográficas" carecem de uma competente dose de paciência da parte do espectador. As coisas no cinema nunca são o que deveriam ser e a vida, observada com menos otimismo e com uma certa dose de um tipo raro de humor, pode parecer estranha. O diretor sueco Roy Andersson propõe exatamente isso em seu filme Vocês, Os Vivos: observa a vida sob uma perspectiva nada convencional e, como sói acontecer no caso de diretores suecos, sem muito otimismo.

É de causar espanto dizer que se trata uma comédia. E é. De um tipo peculiar, em que a monotonia dos planos (quase sempre estáticos e geometricamente calculados) e a palidez dos atores e das atuações criam uma atmosfera que poderia ser descrita com uma frase de um romance de Samuel Beckett: "Quanto mais depressa a gente morrer, melhor será". O constante vagar dos personagens, como almas penadas, pouco ou nada interligadas, expostas ao silêncio curioso daqueles que os cercam, é apenas uma opção de linguagem. Quase nenhum cineasta vivo tem coragem (e paciência) suficiente para perpetrar algo do gênero.

Há uma certa repetição na estrutura de Vocês, Os Vivos, o que faz parecer que os muitos planos não se conectam de forma alguma (ou que o corte é ligeiramente arbitrário). Roy Andersson não se interessa por resolver tal questão. Ao cineasta interessa é resumir as aparições de seus quase-zumbis num curiosíssimo plano final. Este plano serve para lembrar mais uma vez que às vezes somente a curiosidade nos leva ao cinema.


Vocês, Os Vivos (Du Levande)
Suécia, 2007. 95 minutos.
Direção: Roy Andersson

29 de abril de 2009

Milagre em Sant'Anna/Miracle At Sant'Anna


Repartido em dois "pedaços" de oitenta minutos e exibido em episódios por algum canal a cabo, Milagre em Sant'Anna não faria feio. Dirigido por Spike Lee, trata-se de um filme de guerra no sentido lato do termo. Descontados momentos vagos em que o diretor parece procurar (sem sucesso) caminhos que o libertem das tramas e sub-tramas e de uma boa dúzia e meia de personagens, há aqui uma obra "limpa", que tem por ideal reposicionar o valoroso papel dos soldados negros americanos na vitória aliada na Segunda Grande Guerra - em particular na Itália. E como seria de se esperar no caso do diretor, isso é feito de maneira honesta.

Porque o diretor não vê um semideus na figura do soldado negro no campo de batalha, cumprindo seu "dever", como é de se supor num filme americano do gênero. Não, senhor. "Essa é uma guerra de brancos", constata um de seus personagens, como se pudesse completar "Eles nos meteram nessa. Vamos cair fora o quanto antes". O patriotismo "sangue e tripas" (e eminentemente branco, diga-se) de Clint Eastwood parece tolo e inconsequente diante da humanidade de Milagre em Sant'Anna. Resumi-lo a uma "resposta" negra a filmes como A Conquista da Honra ou Além da Linha Vermelha, no entanto, é só preguiça de pensar.

É fato que em alguns momentos o longa pareça vaguear. Suas tramas e sub-tramas, em dado momento, parecem mal amarradas, frouxas. A montagem peca pelo excesso, como no prólogo e no epílogo, simplesmente desnecessários. Mas Lee de alguma forma se apruma, extraindo força de um roteiro mediano, fazendo o mesmo com os atores medianos de que dispôs. O grande mérito nisso tudo é não fazer protesto, propaganda ou sequer aquele mesmo filme pela enésima vez para não desagradar quem o financia. O grande mérito reside na coragem de uma figura tarimbada do cinema americano em arriscar-se.


Milagre em Sant'Anna (Miracle At St. Anna)
EUA, Italia. 160 minutos.
Direção: Spike Lee

17 de abril de 2009

Evocando Espíritos ou Os fantasmas se irritam

Em Evocando Espíritos tudo nasce de um modelo desbotado, "baseado em fatos reais". Preenchido com efeitos visuais e montagem a mil por hora, o modelo é reproduzido com certa fidelidade. O problema está é no resultado final.

Família muda-se para uma nova casa. Uma nova vida se anuncia. Mal sabem seus membros que a nova residência em outros tempos era uma funerária, cujo dono gostava fazer mais do que preparar defuntos para a "viagem eterna". A presença dos novos inquilinos não deixa nada satisfeitos os, digamos, antigos clientes do estabelecimento, que resolvem descontar a insatisfação no garoto portador de doença terminal.

Embora faça um esforço sobre-humano para enfileirar referências a O Iluminado, Psicose e O Exorcista, Evocando Espíritos não cumpre uma diretriz básica do gênero: a ação construída sobre o silêncio. Os violinos, utilizados como fundo para imagens absurdas e perturbadoras - e não como tema de sussurros e ruídos "fantasmagóricos" - acabam mesmo é por enfurecer quem assiste ao longa. Junte-se a isso a trama rasa e está pronto mais um campeão de audiência. Nas locadoras, sábado à noite.

Evocando Espíritos (The Haunting in Connecticut)
EUA, 2009. 92 minutos

9 de abril de 2009

O Equilibrista/Man on Wire


Certas proezas, como a que o francês Phillipe Petit executou há quase 35 anos, podem parecer pura tolice. E devem ser mesmo. Afinal, que graça há em um homem que estende sua corda entre torres de igreja, pontes e prédios, nela se equilibra com a ajuda de uma vara, sem qualquer tipo de segurança? Acredite, há.

Basta testemunhar uma das façanhas de Petit em O Equilibrista, documentário do inglês James Marsh. O longa-metragem foi exibido na última edição do Festival do Rio e recebeu prêmios de todos os lados (Oscar incluso).

Fins da década de 60, Petit, então adolescente, enquanto esperava sua vez num consultório dentário, viu a imagem que mudaria o curso de sua vida e nela colocaria uma meta impossível: atravessar, equilibrando-se num cabo de aço, a distância entre os dois prédios mais altos a serem construídos na cidade de Nova Iorque: a torres gêmeas do World Trade Center.

Fiando-se numa montagem vibrante - mas, sobretudo no personagem carismático que encontrou - James Marsh reconta, através da miscelânea de depoimentos dignos dos olhos marejarem, imagens de arquivo e reencenações precisas, a história fantástica de um feito incomparável, dado somente àqueles que ousam arquitetar o impossível.


O Equilibrista (Man On Wire)
2008. 94 minutos.
Direção: James Marsh

Dragonball Evolution


Crianças menores de 15 anos vão adorar. Algumas, coisa de dois ou três anos mais velhas, vão também. Quem sabe até alguns adultos, gente para lá dos 21, pode encontrar uma hora e meia de entretenimento em Dragonball Evolution. Tanto se fala no poder das animações que quando um filme - oriundo do animê, a arte japonesa de animação - vai para as telas, há que se louvar suas qualidades e não ficar atrás dos "defeitos da obra".

Os fãs xiitas dos personagens de Dragonball, como sói acontecer nesses casos, vão dar voltas no nariz de tanto torcê-lo. O roteiro não faz jus à imensidão de personagens do original, tampouco segue o ritmo do desenho animado. O meio-termo, no entanto, só desagrada fiéis. Entendidos na matéria dizem que o longa é vergonhoso e mancha a tradição. Menos, por favor.

O jovem guerreiro Son Goku acaba de completar dezoito anos. Coincidência ou não, sua vida está para mudar por completo. Isso porque Piccolo, uma mistura esverdeada de coisa-ruim com Bruce Lee, foi libertado de sua prisão nas profundezas da Terra e quer as setes esferas do Dragão. Seis, na verdade, porque uma delas foi dada à Goku por seu avô como presente de aniversário, e ele não pretende dá-la de bandeja para o diabão.

Visto como fábula, Dragonball Evolution dá uma boa contribuição para pais e mães na inglória batalha de educar seus rebentos. Visto como cinema é bobagem, embora menos bobagem do que o costumeiro lixo televisivo.

Dragonball Evolution
EUA, 2009. 95 minutos.
Direção: James Wong

25 de março de 2009

Che - O Argentino

Seria uma temeridade, quase uma leviandade, afirmar que o diretor Steven Soderbergh fez um filme "revolucionário". Che - O Argentino é, em partes quase iguais, reencenação e reflexão. Reencenação porque em cada detalhe, dos botões das fardas dos revolucionários ao trem que eles implodem na tomada da cidade cubana de Santa Clara, vê-se a clara(!) e manifesta intenção de não fazer mero teatrinho historiográfico filmado. Some-se a isso o fato de que Benicio Del Toro, protagonista e também produtor do longa, opera seu Che entre o estóico e o brutal - sua performance não salta aos olhos, mas também não se dissolve no totem socialista par excellence.

Estabelecido um campo (vasto) de ação, onde cor e preto e branco se alternam brincando com o tempo, há espaço para reflexão. "Esse" Che de Del Toro não é o enigmático cabeludo barbado líder revolucionário da foto de Alberto Korda, muito menos a figura "pop" socialista estampada em camisetas de shows de rock ou na tatuagem de Maradona. "Esse" Che, sempre às voltas com a asma, falha, fica em dúvida, hesita. Esse "Che" vive à sombra de Fidel Castro, cheio de maneirismos e caprichos na intepretação precisa do ator mexicano Demián Bichir. "Esse" Che, pasmem, é um ser humano.

Mas é fazer pouco do filme dizer que ele humaniza Che Guevara. Qualquer diretor esforçado em início de carreira e com um belo orçamento à sua disposição faria isso sem assombros. O que logicamente Soderbergh faz é mais original . Dispõe os acontecimentos de um período de quase dez anos na vida de Guevara junto à revolução cubana com paciência e habilidade, e delicadamente valoriza as lacunas de seu protagonista, deixando-o inúmeras vezes de cara com o desconcerto do silêncio e da dúvida. Não se trata de um épico, mas é, de uma forma ou de outra, uma obra a ser vista, quiçá revista.

Che - O Argentino (Che - The Argentine)
França, EUA, Espanha. 126 minutos
Direção: Steven Soderbergh
Com: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro, Demián Bichir.

6 de março de 2009

O pop come o pop


U2, Março de 2009, Rolling Stone EUA










Tool, Junho de 2001, Spin

4 de março de 2009

Lanchonete Olympia/Choking Man


Analisando as credenciais do diretor irlandês Steve Barron é de se perguntar porquê, para muitos, ele é um completo desconhecido. Filho de uma diretora e roteirista, ele foi técnico em filmes como Super Homem - O Filme e Os Duelistas. Na década de 80, dirigiu clipes como Billie Jean, de Michael Jackson e Money For Nothing, do Dire Straits, além do longa-metragem cult Amores Eletrônicos (1984).

São dele também Coneheads - Cônicos e Cômicos, a versão cinematográfica das Tartarugas Ninja e a comédia futebolística Mike Basset: Treinador Inglês.

Com tanta experiência, Barron corre para outro lado e investe seus esforços de direção em Lanchonete Olympia, seu primeiro roteiro original. Independente até o osso, o filme conta as agruras de um lavador de pratos equatoriano, vítima de uma feroz timidez. Mudo em boa parte do tempo, Jorge vê numa garçonete recém-contratada pelo restaurante a possibilidade de estabelecer comunicação com o mundo exterior.

Caprichado no uso da câmera e de animações, Lanchonete... salta aos olhos pela calma com que desfia sua narrativa, tecida com poucos planos de atuações irritantemente seguras. Trata-se de um verdadeiro filme independente, despido de fama, construído para ser uma única coisa: um filme, fantasias de super-herói e violência não-inclusas.

Lanchonete Olympia (Choking Man)
EUA, 2006. 85 minutos.
Direção: Steve Barron

Watchmen


Para cada boa adaptação cinematográfica de quadrinhos (ou "novelas ilustradas" , como queiram), existe, pelo menos, uma ruim de doer. Watchmen, contrariando os fãs xiitas do inglês Alan Moore e dos demais autores do gênero, está do lado de cá da proporção. O filme, dirigido por Zach Snyder, é uma fantasia hiperbólica que jorra litros de sangue, porrada e pérolas como "Esta cidade horrenda grita como um abatedouro cheio de crianças retardadas". É daí para baixo.

Estufado de flashbacks, narrações e todo tipo de muleta visual, o longa é movido por um distorcido senso de vingança somado à aplicação inconteste de doses cavalares de porrada, tudo isso tendo em vista a "paz mundial". No que diz respeito à sátira política, diz muito do que se passa na cabeça de "gênios" como Moore e Snyder que é o mesmo que se passa na cabeça de um comunista brasileiro de dezenove anos que acha que o mundo é governado pela CIA e pelos sheiks do petróleo.

Watchmen é uma história de super-heróis aposentados que decidem organizar um retorno para salvar o mundo do ocaso nuclear. Nada mais. Imagine um enredo simples como este esticado por quase três horas, com laivos de misoginia (algo comum aos fãs do gênero), fascismo e corrupção. Se sua vida permite que quase três horas possam ser gastas assistindo à isso, farte-se. Do contrário, fuja como o diabo.

Watchmen
EUA, 2009. 168 minutos.
Direção: Zach Snyder

11 de fevereiro de 2009

Coraline


O diretor de Coraline diz que seu filme é para crianças corajosas de qualquer idade. Quase. Acometido de uma síndrome comum entre animações de longa-metragem - feitas para crianças, mas indicada mesmo para os adultos - a adaptação do livro de Neil Gaiman se diferencia por algumas filigranas que carrega. Uma delas é a estória.

Coraline não é a criança sorridente e feliz de sempre: ela é chata, reclamona e não faz amizades facilmente. Ao se mudar com os pais para uma casa no interior, precisa se acostumar com a vizinhança esquisita - um adestrador de ratos de circo, duas atrizes aposentadas e seus muitos cães -, com a distância dos melhores amigos e com o lugar, cujas ofertas de diversão são raras e nada animadoras. Como resultado, dana a explorar a casa onde mora.

A exploração faz com que ela encontre, num cômodo vazio da casa, uma porta secreta que dá para um mundo "perfeito": seus pais são felizes e permitem que ela coma tudo o que gosta; seus vizinhos são personagens fascinantes que provém todo tipo de diversão. A passagem para o outro lado da porta passa a ser uma constante, até que Coraline descobre porque está ali e o que precisa fazer para continuar: ficar longe dos pais verdadeiros e costurar botões no lugar dos olhos.

Outra filigrana da animação é a técnica utilizada. Ao invés da computação gráfica ou dos traços quase humanos de sempre, Coraline é feito nos moldes de antigas animações, com, ao que parece, bonecos e miniaturas delicadamente esculpidas. Mostra, de fato, um "mini mundo", uma representação fascinante do mundo "de verdade".

Um último detalhe que chama atenção para o longa é o fato de ser exibido (em algumas salas no Brasil, em quase todas nos EUA e Europa) no formato 3-D. O efeito desta feita não é só mais um penduricalho tecnológico para mascarar deficiências. Em Coraline, o efeito é parte quase fundamental da fantasia narrada na tela. Confere a animação uma beleza singular, levando adultos e crianças a outros mundos.

Coraline (Coraline)
EUA, 2009. 100 minutos.
Direção: Harry Selick
Com vozes de: Dakota Fanning e Teri Hatcher.

O Lutador


Um personagem ideal para um ator qualquer ou um ator ideal para um personagem banal? A pergunta se faz necessária após a tijolada na testa que é O Lutador, do diretor americano Darren Aronofsky. É necessária a pergunta porque está nele uma das mais marcantes performances do cinema contemporâneo. Esqueça os imitadores de Ray Charles e Idi Amin dos últimos quatro anos. Perto do que faz Mickey Rourke, interpretando uma estrela ora apagada da luta-livre americana, eles são exatamente o que parecem: imitadores.

Os tempos de glória se foram. Os de Rourke e os de Randy "O Carneiro" Robinson, seu personagem. Ambos fizeram a peregrinação ao topo de tudo e hoje caminham débeis pelo chão do nada. Rourke chegou a viver de doações de amigos para comer. Randy nem tanto, mas sua vida não prima pela fartura ou pelo conforto. Ele hoje luta por migalhas e carrega caixas num supermercado para sobreviver. Ambos têm de engolir a seco o mundo que antes os acolhia e agora lhes dá as costas solenemente. Essas interseccções entre ator e personagem são tantas que encontrar paralelos entre fato e ficção não é das tarefas mais complexas. Mesmo assim, Rouke não imita a si mesmo nem a ninguém. Imprime um ritmo constante, equilibrando doçura e porrada. Bem a seu estilo, diga-se.

Tal e qual um animal feroz encarcerado por duas décadas e que enfim é liberto, Mickey Rourke precisou de adestramento. Seu talento, fartamente comprovado (O Selvagem da Motocicleta, Corpos Ardentes et cetera), parece ter encontrado, pelo menos desta feita, um domador competente: a tal "força" de sua atuação só é notada e louvada porque uma voz habilidosa esteve por perto, para lhe indicar, sugerir, conter e soltar. A balela pura e simples de que Mickey Rourke "interpreta alguém parecido consigo mesmo" não cola. A tal "ressureição" é apenas frase de efeito para pôster. O ator volta a ser o mesmo de sempre, comprometido em absorver seus papéis e não simplesmente passar por eles.

O Lutador é, enfim, o encontro de um ator maduro, um roteiro sólido e um Diretor (assim, maiúsculo) de cinema. Trata-se de uma das grandes experiências cinematográficas recentes. Se digna de prêmios, o que importa?

O Lutador (The Wrestler)
EUA, 2008. 115 minutos.
Direção: Darren Aronofsky
Com: Mickey Rourke e Marisa Tomei.

7 de fevereiro de 2009

Noivas em Guerra

Noivas em Guerra não é dos piores filmes do ainda novo ano. Aliás, ainda é cedo para sair elegendo atrocidades e aberrações cinematográficas. O que se pode dizer dessa comédia tolinha, estrelada por Kate Hudson e Anne Hathaway, interpretando amigas de infância que nutrem juntas o sonho de se casarem com tudo do bom e do melhor, é que... não passa disso mesmo.

Hathaway, indicada a um Oscar este ano, interpreta na medida o papel tolinho que lhe deram, o de uma professorinha de bom coração, indo da pureza à crueldade em uma hora e meia. Hudson, uma das produtoras do filme, relincha, num registro de voz agudo e estridente, as futilidades de uma advogada ambiciosa e egocêntrica. Com o passar do tempo, revela-se uma mera imitadora da mãe, a atriz Goldie Hawn. Pior do que as duas, no entanto, só o roteiro, uma bobagem de autoria de três (!) roteiristas.

Se o objetivo de Noivas em Guerra era mostrar o quão vazias são as prioridades humanas hoje em dia e o quanto as pessoas se rebaixam para cumprí-las, o êxito é total. O que se pretendia hilário é uma mera sequência de situações vazias, intercaladas por montagens fotográficas e a temida narração ao fundo.

Noivas em Guerra (Bride Wars)
EUA, 2009. 89 minutos.
Direção: Gary Winnick
Com: Anne Hathaway e Kate Hudso
n.

16 de janeiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button


Livremente adaptado do conto homônimo de F. Scott Fitzgerald, O Curioso Caso de Benjamin Button, dizem, é sério candidato aos prêmios tidos como importantes do "cinema internacional" (leia-se "cinema americano"). Dizem isso as pessoas que ainda acreditam que a qualidade de um filme pode ser mensurada pela quantidade de prêmios que ele ganha - o que seria o mesmo que avaliar a saúde de um cão pela quantidade de vezes que ele late.

Escapa a essas pessoas o fato de que David Fincher, diretor cujo perfeccionismo tornou-se uma espécie de lenda urbana em Hollywood, dá ao roteiro de Eric Roth contornos épicos, transformando o homem que nasce velho e que rejuvenesce com o passar do tempo numa espécie de "Forrest Gump com classe". Para tanto, contou com a fotografia digital mais avançada à disposição no mercado, direção de arte perfeita e irretocável e um par de protagonistas, talvez, hoje, indiscutível: Brad Pitt, competente e sereno, e Cate Blanchet, excelente e linda como sempre.

A quase-odisseia de Button segue pela história e pelo mundo a partir de 1918, indo culminar na Nova Orleans prestes a ser destruída pelo Katrina, num exame do tempo e de nossas relações com ele: como lutamos para que seus efeitos não nos alcancem e como, com o passar dele, descobrimos que a luta é vã e inútil, até mesmo para quem rejuvenesce ou constrói um relógio que anda para trás.

Numa época em que tudo no corpo pode ser sugado, esticado, removido ou reaproveitado e em que o termo "velhice" entra, lentamente, em desuso, uma fábula sobre rejuvenescimento do corpo e sobre a resistência do amor ao tempo é muito mais do que uma candidata a uma estátua horrenda num programa de televisão. Trata-se de uma delicada obra-prima.


O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case Of Benjamin Button)
EUA, 2008. 166 minutos.
Direção: David Fincher
Com: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond

As Testemunhas


Você tinha certeza de que as “possibilidades metafóricas” de uma doença (incurável) e transmissível pelo ato sexual, no cinema, estavam esgotadas? Pois não tenha. As Testemunhas, filme do diretor André Techiné, prova que ainda resta algo do tema a ser explorado. E assim procede numa estrutura repleta de referências à ópera (o que faz pensar que o filme é uma espécie de "ópera se música"). Quase isso.

Sobre os créditos iniciais, a mezzo-soprano Cecilia Bartoli interpreta majestosamente uma ária de Vivaldi. A estória se passa entre três estações - um verão, o inverno, outro verão - o que pode ser entendido como referência aos concertos do compositor italiano conhecidos como As Quatro Estações. Por fim, Techiné obedece a uma determinada paleta de cores nos figurinos em cena - a camisa quadriculada em tom ocre para a personagem de Johan Libéreau, estampas florais para a cantora lírica interpretada por Julie Depardieu.

É 1984 e Manu muda-se para Paris, onde vai morar com a irmã num quarto de hotel. Os dois são opostos exatos: enquanto ela está decidida a construir uma carreira no canto lírico, ele passa pela vida como um bólido, vivendo de tudo ao mesmo tempo. A época, no entanto, não é das melhores para mergulhar na lascívia e nos prazeres da vida. Uma "moléstia desconhecida" começava a dizimar consideráveis parcelas da população homossexual e, inevitavelmente, faz do rapaz uma vítima.

A partir da amizade nascente entre Manu e um médico homossexual (Michel Blanc), André Techiné aproveita-se cruza-os com a personagem de Emmanuele Beárt, uma escritora de livros infantis que acaba de tornar-se mãe. O filho é da relação com um policial (Sami Bouajila), homem cujas atividades extra-conjugais correm livres, com total consentimento da companheira.

Quando recusa as personagens a possibilidade de serem meras testemunhas de tempos difíceis e sombrios, o roteiro prova sua metáfora: os excessos da carne são sempre passíveis de punição. Às vezes num tapinha de reprovação, às vezes numa doença incurável.
As Testemunhas (Les Témoins)
França, 2007. 112 minutos
Direção: André Téchiné
Com: Emannuele Beart, Michel Blanc, Julie Depardieu.

18 de dezembro de 2008

Uma certa orgia de verbos

Divergir e transgredir. Aponte um cineasta que não sonhe em fazer os dois através de um filme e lhe dirão o caminho para o Paraíso. Aponte um cineasta brasileiro que não sonhe em realizar os dois num tacada só e você estará nele.

O diretor Marcelo Masagão, felizmente, com seu filme Otávio e as Letras, não cai na tentação de fazer nenhum dos dois. Cumpre, no entanto, a tarefa de resgatar um tipo de personagem que parecia extinto das telas nacionais: o ser urbano brasileiro, solitário, incompleto, aquele que recolhe papéis ou faz fotos das janelas do prédio vizinho.

Otávio é um tipo assim. Ele “captura” palavras. Ele recolhe por toda a cidade – São Paulo, por exemplo - qualquer tipo de papel, e rabisca, munido de canetas esferográficas de tinta azul, todas as palavras ali impressas. Seu apartamento – o apartamento número Zero do prédio – tem as paredes decoradas com palavras, em jornais, revistas, livros e panfletos.

Masagão rejunta esse e outros (poucos) personagens numa “quase” colagem de momentos esparsos, respingados, às vezes, de surrealismo. Não quer contar nem quer explicar nada de um jeito poético ou metafórico. Deixa para o público, que contempla a si mesmo enquanto correm os créditos finais, contar e explicar. Ou divergir e transgredir.
Otávio e as letras
Brasil, 2007. 83 minutos.
Direção: Marcelo Masagão
Com: Donizete Mazonas, Arieta Correa.

12 de dezembro de 2008

O Menino de Pijama Listrado

O Menino do Pijama Listrado carrega consigo um leve aroma de comida requentada. Vejamos. A estória se passa durante a Segunda Grande Guerra. Seu protagonista é um menino de uns sete, oito anos. Se for na Segunda Guerra, tem o quê? Os nazistas, claro, e com direito à toda aquela palhaçada em cinza e vermelho, ao som de hinos horrorosos, cantados em uníssono.

É, comida requentada. Menino, Segunda Guerra, nazismo, os judeus. Os valores de um filme como, digamos, A Vida é Bela, de Roberto Benigni, foram apenas trocados - o menino protagonista está do lado nazista, desta feita. Seu pai é promovido ao comando de um "campo de trabalho" e a família se muda para uma propriedade vizinha ao "trabalho do papai". O menino alemão, explorando a vizinhança, conhece o menino judeu, carequinha e metido num horrendo uniforme. Da amizade à tragédia em noventa minutos.

Direção e roteiro insistem na tese (tola) de que um menino de oito anos, na Alemanha sob comando nazista, filho de um oficial do exército alemão, não tinha noção alguma da antipatia ao povo judeu. Faz o espectador de trouxa e desinforma aqueles que, parece, são o alvo da narrativa: as crianças.

Ao tentar se incumbir da árdua tarefa de contar (mais uma vez) a "História do Holocausto pelos Olhos de Uma Criança", cheio de uma fotografia empavonada e música encharcada de lágrimas (marcas registradas da empresa produtora do filme), O Menino do Pijama Listrado, pena, fica só na tentativa.

O Menino de Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pajamas),
(Reino Unido, EUA, 2008).94 minutos.
Direção: Mark Herman

12 de novembro de 2008

Cashback

A história de Cashback (2006) é, para dizer o mínimo, curiosa.

Curta-metragem produzido em 2005, indicado ao Oscar em 2006, o filme foi "esticado" por seu diretor e roteirista, Sean Ellis, um fotógrafo de moda, para o formato de longa-metragem. Quando curta, contava a peripécias de um jovem universitário estudante de Artes que, necessitado de grana, arruma um emprego no turno da noite de um supermercado. Uma vez alongado, tornou-se uma fábula sobre o amor e o tempo - ou, como o segundo influi na apreensão do primeiro.


O jovem Ben (Sean Biggerstaff) enfrenta as agruras do fim de seu namoro com a belíssima Suzy. Solteiro, acometido por uma crise devastadora de insônia pela ausência da moça, ele decide preencher suas regulamentares oitos horas noturnas de sono trabalhando num supermercado. Não exatamente empolgado ou inspirado pelo trabalho, Ben aprende (para efeitos de fábula, ok?) a pausar o tempo, a congelá-lo quando bem entender.


Lançando mão de artifícios digitais para, digamos, "fazer sentido" naquilo que propõe, o diretor Sean Ellis apenas peca no que tange à coerência. Um roteiro deve ter um tema que, descontadas experimentações à base de narcóticos, vem naturalmente à tona através de situações e personagens. Seu roteiro, no entanto, é só tema. Acrescente-se à mistura meia dúzia de belas mulheres nuas e/ou semi-nuas e uma chatíssima narração e temos um resumo rápido do que Cashback tem a oferecer.


É pouco, mas resolve.

Cashback
Reino Unido, 2006. 98 minutos.
Direção: Sean Ellis
Com: Sean Biggerstaff, Emilia Fox.